quinta-feira, 7 de junho de 2012

Desenvolvimento físico na adolescência


Atualmente, se procurarmos por uma definição de adolescência no dicionário, encontramos o seguinte: “Quadra da vida entre os primeiros assomos da puberdade e o termo do completo desenvolvimento do corpo”. Ou seja, encontramos uma definição muito ligada a fatores biológicos. Porém, apesar de adolescência ter estado muito ligada a aspetos biológicos durante vários séculos, atualmente também possui significados sociológicos, psicológicos e cronológicos. Ou seja:
- Cronologicamente, a adolescência vai aproximadamente dos 12 ou 13 anos até aos 22 ou 24 anos (nas culturas ocidentais; o aspeto cronológico está muito relacionado com a sociedade e cultura em que o indivíduo está inserido)
- Sociologicamente, este é o período em que o sujeito transita de um estado de dependência para um de autonomia, de forma progressiva, alcançando a posse de funções e características típicas dos adultos
- Psicologicamente, é a fase de identidade do “eu”, muito sensível e que pode acarretar algumas consequências para o indivíduo e/ou a sociedade
                Observamos assim que a adolescência é um conceito muito mais amplo atualmente, incluindo mudanças consideráveis nas estruturas da personalidade e no papel que o indivíduo exerce na sociedade. O indivíduo procura ajustar-se e encaixar na sociedade, através da luta pela independência (não só financeira, mas também emocional), pela escolha de uma vocação e mesmo pela definição da sua identidade sexual, algo que pode ser problemático, se tivermos em conta que alguém que não se insira nos padrões definidos pela sociedade para rapaz e rapariga pode ser mal visto, ou mesmo considerado um problema.
                Todos os fatores referidos anteriormente não se encontram isolados, sendo algo complexo e por isso em constante relação e interdependência. A partir daí, compreende-se como os fatores sociais e psicológicos se alteram, graças a rituais de passagem, típicos das sociedades menos desenvolvidas e que acontecem sobretudo com os membros do sexo masculino, que fazem com que a adolescência seja um período curto. Não pretendemos com isto afirmar que a adolescência das sociedades mais desenvolvidas (sobretudo as das sociedades ocidentais) seja melhor, pois a falta de rituais de passagem torna esta fase da vida numa fase com muitas incertezas e dúvidas, tornando-se também num período mais longo. Ou seja, o término da adolescência está intimamente relacionado com o contexto sociocultural do indivíduo. Poderá considerar-se que um indivíduo passou a fase da adolescência quando este se ajustou aos padrões da sociedade relativamente aos adultos.
                Uma das grandes caraterísticas da adolescência nas sociedades ocidentais é a constante luta entre o adolescente e o seu mundo (pais, escola, sociedade), na medida em que a sociedade vê o adolescente com alguém irresponsável, fora dos padrões da sociedade e mesmo rebelde. O adolescente acaba por refletir, de alguma maneira, essa imagem da sociedade, sendo possível afirmar mesmo que a própria sociedade também acaba por encorajar um pouco essa imagem (por exemplo, em Portugal, através de séries destinadas a adolescentes, como a série “Morangos com Açúcar”).
                Piaget refere ainda que a adolescência é o período dos grandes sonhos e aspirações, mesmo que não estejam de acordo com a realidade. Todavia, à medida que o indivíduo amadurece de forma normal e natural, vai aprendendo a discriminar entre o possível e o desejável.
                Em termos psicossociais, fundamentalmente a adolescência é um período de transição. Quem se encontra nesta fase da vida já não é criança, mas ainda não é adulto, sendo que isto poderá gerar confusão no adolescente e dificuldade em perceber qual o seu papel e a sua função na sociedade, onde ele encaixa. Esta confusão desaparecerá à medida que o adolescente define a sua identidade psicológica.
                Finalmente, a adolescência é um período com muitas mudanças significativas. Hurlock refere-nos 4 que possuem forte impacto:
                - Aumento da intensidade emocional, proporcional à rapidez com que as alterações físicas e psicológicas se processam
                - Amadurecimento sexual, muito conectado a insegurança do adolescente em relação a si próprio, às suas aptidões e interesses, sentindo nesta fase muita instabilidade. Poderá ser normal, devido ao amadurecimento sexual, que nas aulas de Educação Física ninguém se queira voluntariar para executar determinada tarefa, por não confiar nas suas aptidões e assim ter medo de ficar mal visto pelos seus colegas
                - Mudanças corporais, nos interesses e funções sociais, que poderão produzir alguns problemas, pois o adolescente não sabe o que o grupo espera dele
                - Alterações no sistema de valores, na medida em que assuntos que antes o adolescente considerava importantes já não o são. Além disso, graças ao seu desenvolvimento intelectual, poderá agora avaliar a questionar o seu mundo, e particularmente o sistema de valores a que foi exposto e que antes aceitava e obedecia de forma automática e sem nenhuma questionação. Provavelmente será na adolescência que o indivíduo definirá o seu sistema de valores, os seus princípios morais.

Mudanças fisiológicas
                A adolescência fica fortemente marcada por mudanças fisiológicas (e que irão estar relacionadas com todas as outras) em grande número e intensidade num curto espaço de tempo nos órgãos genitais e em todo o organismo, aproximadamente dos 12 aos 15 anos nas raparigas e dos 13 aos 16 nos rapazes. As mudanças podem-se distinguir entre:
                - Relacionadas com o sistema reprodutor, como por exemplo aparecimento da primeira menstruação nas raparigas (menarca) e possibilidade de libertação de esperma nos rapazes (ejaculação)
                - Não relacionadas com o sistema reprodutor, ou seja, o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários (mudanças físicas não relacionadas com a reprodução, que distinguem homens de mulheres)

                Relativamente aos rapazes, os seus testículos, por volta dos 14 anos, terão apenas 10% do tamanho normal em adulto, sendo que por um ou dois anos ocorrerá um rápido desenvolvimento dos mesmos, estando completamente desenvolvidos aproximadamente aos 20-21 anos.
                Em relação às raparigas, o seu aparelho reprodutor desenvolve-se durante a adolescência, mas não de forma brusca. Enquanto o útero de uma menina de 11/12 anos pesa, em média, 43 gramas, os restantes órgãos – trompas, ovários, vaginas – crescem rapidamente.
                Normalmente, este rápido crescimento leva a uma falta de coordenação motora, que origina a que a criança se possa tornar desajeitada, tímida e com receio de ficar mal vista pelos outros. Com a definição e consolidação da identidade do indivíduo, estes problemas serão solucionados.

Problemas específicos dos rapazes e raparigas e as aulas de Educação Física
                Se as mudanças inerentes à adolescência não ocorrerem no modo e no tempo esperado, poderão ter algumas consequências.
                Nas raparigas, alguns dos problemas específicos mais frequentes são o aparecimento da menarca muito cedo, visto que raparigas com menstruação precoce podem não estar psicologicamente preparadas, devido à pressão da mudança, e o pequeno desenvolvimento dos seios, que pode causar alguns traumas, pois os seios podem simbolizar a sexualidade e a entrada na idade adulta.
                Já nos rapazes, os problemas estão ligados a uma maturação tardia, que normalmente implica que esses rapazes sejam mais baixos, mais fracos e piores atletas, e o pequeno desenvolvimento do pénis, que pode levar à ridicularização do rapaz, sendo mesmo a sua masculinidade posta em causa.
                A maturação precoce e tardia pode levar a diferenças de personalidade, dependendo sobretudo da forma como ela é vista pelo mundo que rodeia o adolescente. Se a maturação precoce ou tardia for considerada como uma caraterística negativa, provavelmente o adolescente será lesado de forma negativa.
                Como normalmente os rapazes com maturação precoce são mais confiantes, em parte porque quem os rodeia considera-os mais adultos que os rapazes com maturação tardia, deve-se dar algum apoio especial a estes últimos, tal como às raparigas com maturação precoce ou com seios pouco desenvolvidos.
                Compete também aos professores apoiarem os alunos e conseguirem que eles se preocupem menos com o seu crescimento físico, emocional e sexual. Existe uma disciplina em particular onde o professor deve ser muito competente: Educação Física. Nas aulas de Educação Física (e no treino, se ultrapassarmos o âmbito estritamente escolar), há possibilidade de alguns rapazes ou raparigas se sentirem inferiores a outros ou outras, sobretudo no balneário, onde tomam banho juntos/juntas e se podem comparar, de modo a verificar se são normais ou não. Os professores de Ed. Física e treinadores devem tentar aperceber-se de alguns casos e tentar dar algum conselho ao seu aluno/atleta, sobretudo porque os pais, ao contrário da infância, passam para um papel secundário, e os professores/treinadores podem ter grande importância, dependendo do seu relacionamento com o aluno/atleta. Frequentemente no balneário, quando os adolescentes se comparam, podem ter sérios problemas se considerarem que não são normais, pois normalmente ou se comparam com colegas da mesma turma depois das aulas de Educação Física, ou se comparam com colegas da mesma equipa, sendo que ambos normalmente fazem parte do grupo de amigos/amigas importantes para o adolescente. Assim, é de fundamental importância o professor de Ed. Física ou treinador tentar aperceber-se destes problemas e dar o conselho mais adequado possível.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Desenvolvimento Moral

É de extrema importância o raciocínio moral de jovens e adultos no mundo atual, pois é fundamental haver uma noção consensual da sociedade do que é correto e errado. O modo como o pensamento moral se desenvolve ao longo da idade é objeto de grande interesse e estudo na Psicologia do Desenvolvimento. Um dos objetivos dos pais na educação de um filho será sempre que ele não execute comportamentos que moralmente não são considerados adequados no seu contexto (familia, sociedade, etc). Neste ambito salientam-se os estudos de Piaget, com dois estádios de desenvolvimento moral, e de Kohlberg, com três niveis de desenvolvimento moral, cada um possuindo dois estádios.

Kohlberg definiu os estádios através de um estudo realizado a crianças e jovens de várias culturas e diversas religiões, zonas de habitação (urbanas e rurais), entre outros aspetos . Apresentava um dilema moral a cada criança e jovem, e com base nas respostas destas, fez um padrão de estádios de desenvolvimento moral, onde enquadrava cada um dos sujeitos do estudo.
O dilema moral apresentado aos inquiridos não era um dilema que normalmente se apresentava a crianças e jovens, onde normalmente existia um bom da fita e um mau da fita. Não havia respostas corretas nestes dilemas, sendo que Kohlberg pedia uma resposta a quem apresentava o problema sem nenhuma opção satisfatória, e o indivíduo teria que justificar a sua resposta.
Alguns dos dilemas de Kohlberg tornaram-se conhecidos, como foram os dilemas de Heinz e o dilema que apresentamos de seguida:
Dois jovens irmãos estavam em sérios problemas. Eles iam sair da cidade secretamente e precisavam de dinheiro. Karl, o mais velho, invadiu uma loja e roubou 1000 dólares. Bob, o mais novo, foi ter com um senhor idoso reformado conhecido por ajudar as pessoas da cidade. Bob disse-lhe que estava muito doente e que precisava de 1000 dólares para pagar uma operação. Bob pediu ao senhor para lhe emprestar o dinheiro e prometeu-lhe que iria pagar de volta quando recuperasse. Na verdade Bob não estava doente, e não tinha nenhuma intenção de pagar o dinheiro de volta. Apesar de o idoso não conhecer Bob muito bem, emprestou-lhe o dinheiro. Assim, Bob e Karl fugiram da cidade, cada um com 1000 dólares.
1 – Qual é pior, roubar como o Karl ou cometer fraude como o Bob?
1.1 - Porque é isso pior?
2 – Qual é que pensas ser a pior coisa em enganar o senhor idoso?
2.1 – Porque é essa a pior coisa?
3 – No geral, deve uma promessa ser mantida?
4 – É importante manter uma promessa com alguém que não conheces bem ou que nunca mais irás ver?
4.1 – Porquê ou porque não?
5 – Porque não deve alguém roubar de uma loja?
6 – Qual é o valor ou a importância dos direitos de propriedade?
7 – Devem as pessoas fazer tudo o que podem para obedecer à lei?
7.1 – Porquê ou porque não?
8 – Estava o idoso a ser irresponsável ao emprestar o dinheiro a Bob?
8.1 – Porquê ou porque não?

Utilizando esses dilemas, Kohlberg criou uma teoria segundo à qual o desenvolvimento moral se desenvolvia através de uma sequência de 3 níveis, cada um deles subdividido em dois estádios. Note-se que cada estádio representa mais que uma decisão moral correta, isto é, revela uma forma de raciocino moral.

Nível  I: Moralidade pré – convencional
Nível correspondente a crianças até aos 9 anos, bem como alguns adolescentes e grande número de delinquentes.
O individuo nesta fase raciocina em relação a si mesmo e ainda não apreendeu totalmente as regras e expectativas sociais, sendo estas completamente externas ao sujeito. A criança ajusta-se às regras impostas pelas figuras de autoridade para evitar a punição ou para obter recompensas pessoais.

Estádio 1 – Moralidade Heterónima: A criança, neste estádio, adopta um ponto de vista egocêntrico. Para ela, o que está correto é obedecer cegamente às regras e à autoridade, de forma a evitar o castigo. As razões para fazer o que está certo é evitar a punição e os castigos.

Estádio 2- Individualismo, Propósito e Troca instrumental : Existe uma tendência para o egoísmo. Para a criança, o que está certo é a satisfação das nossas necessidades e interesses. Nesta fase, a criança reconhece que os outros também têm interesses. Ela entende que só se devem fazer as coisas aos outros se os outros retribuírem o favor – reciprocidade pragmática.


Nível II : Moralidade Convencional
Nível correspondente à adolescência. Note-se que a maior parte das pessoas fica aqui, não avança mais.
O sujeito considera correto aquilo que está conforme e que respeita as regras, as expectativas da sociedade. Reconhece-se com as pessoas que garantem as normas e esforçam-se por cumprir as regras estabelecidas por outros, de forma a obter louvor e reconhecimento pelo seu comportamento correcto.

Estádio 3 – Expectativas e relações interpessoais mútuas e conformidade interpessoal: Neste estádio, o sujeito tem em conta o que os outros pensam ou sentem. O adolescente apresenta gratidão e apreço pelas autoridades e procura ser digno dessa confiança, respeitando –as e reconhecendo a importância da reciprocidade e tratando bem os outros porque espera que os outros também o tratem bem. Viver de acordo com aquilo que os outros crêem de nós e fazer aquilo que os outros supõem que nós façamos, é o que está correto.

Estádio 4 – Sistema e consciência social, manutenção da lei e da ordem
Fazer o seu dever na sociedade, apoiar a ordem social e manter o bem-estar da sociedade ou do grupo. Cumprir os deveres com os quais se concordou. As leis devem ser apoiadas, excepto em casos extremos em que entram em conflito com outros deveres e direitos sociais estabelecidos. Contribuir para que sociedade, o grupo ou a instituição sejam mantidos.
Manter em funcionamento a instituição em funcionamento como um todos, o auto-respeito ou a consciência compreendida como o cumprimento das obrigações definidas para si próprio.

Nível III: Moralidade pós convencional,
Este nível, alcançável apenas por uma minoria de adultos, já é avançado. Os indivíduos ligam-se a diversos princípios morais, que podem mesmo prevalecer sobre figuras de autoridade, ou mesmo sobre normas e valores da sociedade em que se encontram inseridos. Aliás, o sujeito aceita as regras da sociedade pois normalmente estão implicadas nessas regras alguns princípios morais com os quais o indivíduo concorda. Porém, se houver conflito entre algum seu princípio (os princípios morais corporizam-se e tornam-se individuais) e as normas da sociedade, prevalecerão os princípios morais do sujeito.

Estádio 5 – Contrato social
Os deveres do indivíduo estão definidos por meio de um contrato, como por exemplo uma Constituição. Todos devem respeitar esses contratos, de modo a garantir o bem-estar de todos.
Assim, as atitudes morais devem possuir sempre a finalidade de agradar á maioria ou de elevar o bem-estar da sociedade. Apesar de a lei ganhar em caso de conflito entre esta e o sujeito, admite-se neste estádio que as leis e normas não são algo que se vai verificar para sempre, pois resultaram de reflexão, discussão e consenso de várias pessoas, e devido a algum factor (revolução, passar dos anos, etc.) podem-se alterar. As normas e valores da sociedade integram o contrato social que deve ser aceite livremente por todos, mas sempre respeitado e que defenda o seguinte:
- respeito pelos direitos fundamentais como o direito à vida e o direito à liberdade
- utilização de processos democráticos para alterar as leis e melhorar a sociedade
Este estádio afirma que certos valores e direitos devem ser sempre defendidos em qualquer sociedade, independentemente das suas especificidades.
O mais importante do estádio 5 será que as decisões serão tomadas com base nos interesses da maioria. Caso exista conflito entre as leis ou normas da sociedade ou grupo e os interesses da maioria, a decisão do indivíduo localizado neste estádio será sempre tomada pensando nos interesses da maioria. Esta decisão deriva do fato de que nem sempre os valores de um grupo coincidem com as suas normas ou leis, e desse modo nestas não deverão ser obedecidas.

Estádio 6 – Princípios éticos universais
Este estádio não é “aceite” por todos, pois há quem discorde da inclusão dele, devido ao escasso número de pessoas nele se encontram. O comportamento moral é controlado por um ideal interiorizado, que não depende das reações dos outros, mas que respeita sempre princípios universais (igualdade de direitos, dignidade e justiça).
Indivíduos no estádio 6 são raros, muitas vezes valorizam os seus princípios mais do que a própria vida, muitas vezes são vistos como encarnando o potencial humano máximo. Graças a isso, são frequentemente martirizados pelos estádios mais baixos, envergonhados por verem o potencial humano tão desenvolvido, comparado com os seus próprios níveis de desenvolvimento, só parcialmente desenvolvidos (ex. Mohandas Gandhi, Jesus de Nazareth, Gautamo Buddha). As questões que os regem podem ser: “O que é a justiça para todos?”; “O que é que promoverá a vida, no seu máximo, para todos os seres-vivos?”
Posto isto, podemos dizer que para o estádio 6, o certo é o que obedece aos princípios éticos universais e sempre que respeitam esses princípios, as leis ou os contratos e acordos sociais são válidos. A razão para fazer o que está certo é que a pessoa reconhece a validade dos princípios e procura cumpri-los. 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Desenvolvimento Psicosocial e Psicossexual

Os 8 estádios de desevolvimento psicosocial criados por Erikson, ao contrário dos 5 estádios de desenvolvimento psicossexual de Freud, enfatizam o aspeto social. Apesar de Erik Erikson ter sido um discipulo de Freud, as diferenças de pensamento entre ambos eram significativas. Enquanto que Freud apenas elaborou estádios que iam da infância à adolescência, Erickson alargou-os para todo o periodo da vida humana. Além disso, este psiquiatra alemão valorizou muito mais as interações entre individuo e meio, afirmando que existe sempre uma interação com o mundo exterior, que se alarga à medida que a pessoa se vai desenvolvendo. Aliás, a propósito deste aspeto, Erikson declarava que quando uma pessoa transitava de um estádio para o seguinte, também as suas relações com o mundo aumentavam (Exemplo: Do primeiro para o segundo estádio, as interações alargam-se, sendo que no primeiro estádio são apenas com os pais e no estádio seguinte podem estender-se até aos irmãos).


Ao contrário de Erikson, Freud elaborou cinco estádios de desenvolvimento psicossexual, tal como foi referido anteriormente. Ao longo de cada um dos estádios psicossexuais, as crianças são auto-eróticas, visto que obtêm prazer erótica aquando da estimulação de uma zona erógena (parte do corpo que, quando estimulada, dá lugar a uma sensação sexual). Cada estádio tende a estar localizado numa determinada zona erógena.



Desenvolvimento Psicossexual:


Estádio Oral: Primeiro estádio do desenvolvimento psicossexual que vai desde o nascimento até aos 18 meses/2 anos. Nesta fase a fonte de satisfação erótica é a boca, ou seja, as suas necessidades e gratificações estão focadas na boca. Inicialmente neste estádio a criança limita-se a mamar no seio na chupeta ou no biberão de forma passiva, e a sua primeira sensação experimentada é na ingestão de alimentos. Não esquecendo que o acto de alimentar não se refere somente ao acto de ingestão da comida mas também as relações humanas e de afecto, nomeadamente com a figura materna.
Numa fase mais avançada deste estádio a criança começa a tirar grande satisfação do seio materno mas também procura agarrar qualquer objecto e mordê-lo, no qual contribuiu o desenvolvimento da dentição. De realçar neste estádio que sendo a mãe uma das únicas fontes de prazer da criança, a atitude básica da mãe para com a criança, vai ser determinante para a atitude básica da criança perante a vida, a personalidade começa-se já desde esta altura e estruturar-se.

Estádio Anal: Este estádio fixa-se sensivelmente entre os dois e os quatro anos. É nesta altura que se começa a desenvolver o controlo muscular ligado à defecação, sendo agradável para a criança a descarga reflexa produzida pela pressão dos músculos. Deste modo, a zona erógena deste estádio é a região anal, sendo que uma das grandes fontes de prazer para a criança será reter ou expulsar fezes. É nesta altura que é preocupação dos pais, que as crianças criem hábitos higiénicos, sendo que, segundo Freud, se essa educação do asseio for demasiado restrita ou demasiado tolerante criam-se problemas, portanto o ideal seria um “meio-termo”, para que exista um desenvolvimento normal da personalidade. Para terminar este estádio, de realçar que existe uma sexualidade auto-erótica e que é uma fase em que a criança é mais autónoma.

Estádio Fálico: Este estádio desenvolve-se entre os três anos e os cinco/seis anos. É neste estádio que a satisfação erótica passa pela zona genital, havendo manipulação e até mesmo exibição desta zona. O prazer da criança está centrado nas zonas genitais e na sua estimulação. É nesta fase que as raparigas e os rapazes descobrem que os seus corpos são diferentes. Nesta fase o papel dos pais torna a ser muito importante, pois se os pais ensinam os filhos, que obtêm prazer ao tocar nos órgãos genitais, que o que eles fazem é vergonhoso, os rapazes podem contrair o medo da castração e as raparigas a “inveja do pénis”. É também ao longo desta fase que aparecem o complexo de Édipo para os rapazes e o complexo de Electra para as raparigas, em que as crianças nutrem uma atenção especial pelo progenitor do sexo oposto e desenvolvem uma relação agressiva com o progenitor do mesmo sexo.

Estádio de Latência: Estádio que se situa a partir os cinco/seis anos de idade até à puberdade. Neste estádio dá-se uma ausência quase total dos desejos sexuais, denominando-se esta falta de pulsões sexuais como amnésia infantil, processo no qual “a criança reprime no inconsciente as experiências fortes do estádio fálico”. Neste estádio a energia psíquica da criança é orienta para o sentido de adquirir competências para a vida em sociedade. Existe uma grande curiosidade intelectual por parte da criança, contribuindo para isso a entrada na escola, querendo ser o melhor da escola, uma “criança-modelo”.

 
Estádio Genital: Estádio da puberdade e da adolescência. Estádio que representa o alvo ideal do desenvolvimento humano. A sexualidade desperta-se novamente e com grande intensidade, sendo isto explicado pela maturação orgânica e impulsos desencadeados pela produção de hormonas sexuais. No entanto este estádio repete um pouco os períodos anteriores, como por exemplo o complexo de Édipo que é revivido pelo adolescente, sendo que desta vez, não em relação ao progenitor do sexo oposto mas sim uma atracção por pessoas do sexo oposto alheias ao universo familiar. A satisfação dos impulsos da líbido é procurada pela prática de actividades sexuais de natureza genital. Após terem resolvido os conflitos dos estádios anteriores os jovens estão preparados para actos ligados à reprodução. Concluindo, sendo este o ultimo estádio do desenvolvimento, neste período não há fixação.


sexta-feira, 30 de março de 2012

Desenvolvimento na infância

Dentro da Psicologia do Desenvolvimento, podemos considerar como uma área de interesse as etapas da infância e da adolescência, sendo que existem mesmo vários psicólogos que se especializam neste ramo.
Várias questões se colocam a estas fases da vida, tais como: "Quais são as competâncias visuais dos bebés? Quando nascem já veem?" "Para que género de coisas preferem olhar?".
Dada a visão desfocada das crianças aquando do seus nascimento, estas apenas percecionam padrões e formas, sensivelmente até aos 2 meses. A partir dos 6 meses a visão começa a ganhar maior nitidez, sendo que é a partir dos 4 meses que os bebés mostram preferência por fotografias com o olhar direto. É também nesta altura que os bebés conseguem coordenar o desenvolvimento da visão com o dos membros superiores, conseguindo assim pegar em coisas mais pequenas e para eles muito intrigantes e interessantes, como os brincos e cabelo da mãe.
Atingindo os 6 meses,  o bebé já possui uma perceção idêntica à de um adulto, tendo desenvolvido já várias competências visuais, tais como: distinguir os detalhes dos objetos e usar coordenadamente os dois olhos para a visão binocular. Neste momento os seus olhos possuem dois terços do tamanho final.
Tendo 1 ano de idade os bebés coordenam perfeitamente o movimento dos olhos com o movimento do corpo.
De salientar ainda que está provado que os recém-nascidos têm uma clara preferência por rostos humanos.



sexta-feira, 16 de março de 2012

"Secret of the Wild Child" - Análise

"Secret of the Wild Child" é um documentário que retrata a história de uma "criança selvagem", chamada Genie. A 4 de Novembro de 1970 foi descoberta pelas autoridades de Los Angeles, tinha então 13 anos e cerca de 10 foram passados num quarto isolada de todo o meio envolvente.
Genie foi alvo de estudo ao longo de vários anos, sendo que este tinha como principal objetivo analisar qual a influência do meio e da hereditariedade no crescimento, desenvolvimento e comportamento dos seres humanos.
Após debatermos sobre esta questão, que intriga a comunidade científica, concluimos que o grupo é unânime na opinião de que as experiências do meio são mais cruciais do que os aspetos genéticos. Contudo, "não podemos excluír nem a hereditariedade nem o meio tal como não podemos excluír nem o comprimento nem a largura para determinar a área de um quadrado ou de um retângulo", tal como referiu a Professora Cláudia Dias.
Após observarmos os estudos de que Genie foi alvo, perdura a questão: Será moralmente correto a utilização deste tipo de seres humanos para investigações científicas?

sexta-feira, 2 de março de 2012

"A Psicologia possui um longo passado, mas uma curta história..."

Desde os primórdios da Humanidade que os povos ancestrais "filosofam" sobre questões inerentes à existência humana, tais como a morte e a imortalidade, o bem e o mal, as causas dos seus medos e preocupações e a alma. Daí podermos afirmar que a Psicologia, ramo intimamente ligado à Filosofia, tem um longo passado. Era através desta que o Homem refletia sobre questões como, por exemplo, "Porque é que as pessoas agem de determinada forma?".
Todavia, a Psicologia tem também uma curta história. Com o passar dos séculos, os vários ramos da Filosofia foram-se autonomizando, sendo que o termo "Psicologia" aparece nos finais do século XVI, mais precisamente em 1590. A origem da palavra advém de psyquê (que significa alma, sopro) e logos (que significa tratado, ciência).
Apenas nos finais do século XIX, mais precisamente em 1879, é que se observa a independência da Psicologia, graças a Wilhelm Wunt e à criação do seu laboratório de psicologia, primeiro em todo o mundo.
Em suma, a Psicologia possui um longo passado, visto que é tão antiga quanto a existência do Homem. Por outro lado possui uma curta história, pois cientificamente começou há cerca de um século.
Ao afirmar-se cientificamente, surgiram vários métodos de trabalho na Psicologia, tal como demonstra o seguinte quadro:



Método Introspetivo
            Ao contrário de outros métodos, como o clínico, o método introspetivo apenas possui um ramo, a introspeção controlada. Isto é, referirmo-nos ao método introspetivo ou à introspeção controlada é o mesmo assunto.
            Através de um olhar etimológico, concluímos que introspeção provém do latim introspectum, que significa a ação de olhar para o interior. Ou seja, introspeção traduz-se em conhecer as nossas emoções através de um olhar interior em nós próprios, refletindo sobre o nosso próprio ser. Neste método, tanto somos o sujeito que possui o conhecimento como o indivíduo que é objeto de estudo.
            A introspeção controlada serve-se de observadores externos do sujeito que pratica a introspeção, sendo que este deverá estruturar e organizar as descrições dos seus próprios estados e disposições mentais, tomando consciência delas. Normalmente são alvo de introspeção as crenças, imagens, memórias, ou as intenções, emoções, ou alguns simples conceitos e raciocínios. Este método é muito defendido pelo estruturalismo, orientando-se para o estudo do consciente.
            Porém, possui algumas desvantagens, tais como a grande dificuldade em expressar certas emoções verbalmente (ou qualquer emoção para pessoas com dificuldade em fazê-lo) ou o facto de se limitar ao consciente, ignorando, por exemplo, a fenómenos inconscientes ou fisiológicos. Apesar de tudo, ainda é muito usada na psicoterapia, psicanálise e na terapia cognitivo-comportamental, onde o sujeito reflete sobre as suas ações e pensamentos e respetivas consequências, sendo ajudado a pensar e agir de forma a diminuir o seu sofrimento.

Método Observação
            Desde a Introspeção ao método clínico, o estudo da psicologia passa pela observação dos fenómenos psíquicos. A realização da observação isolada do método experimental sucede por não ser possível o recurso ao método experimental.
Contudo é sempre possível estabelecer hipóteses e recorrer a técnicas de observação que permitam a verificação das hipóteses sem passar pela experimentação.
            As condições em que essa observação é produzida levam a identificar diferentes formas:
  • Laboratorial - Produzida em condições controladas
  • Naturalista - Elaborada no meio natural em que se desenrola a situação
  • Invocada - Realizada a partir de situações ocasionais e em que as condições não são controladas nem previstas.

Método Experimental
O Método Experimental baseia-se no método científico comum à maioria das ciências. É defendido pelo Behaviorismo mas utilizado por outras correntes de psicologia. O seu objectivo é permitir conhecimentos sobre comportamentos comuns a um grupo de pessoas.
  Fases do método
  1. Hipótese Prévia - Estabelecimento de uma relação causa-efeito explicativa de uma situação. Pretende relacionar a presença de um facto (situação) com a modificação de outro (comportamento).
  2. Experimentação - Fase de verificação da hipótese. Nesta fase é determinante o rigor das observações e controlo da situação experimental:
    1. Controlo de variáveis - Elementos que constituem a situação de estudo relativamente à alteração ou manifestação de um comportamento cuja natureza se desconhece. O objectivo desta fase é comprovar se o efeito que a variáveis independentes provocam na variável dependente é aquele que se supusera na hipótese:
                                          i.    Dependente - Elemento que constitui a modificação do comportamento a explicar surgindo como a variável de resposta, consequência da variável independente.
                                         ii.    Independente -  São os factores supostamente responsáveis pela situação e que vamos manipular e controlar para verificar a variável dependente. Aparecem ligadas à situação ou à personalidade.
                                        iii.    Externas - Elementos de uma experiência que não são controláveis ou sucedem inesperadamente mas que podem influenciar uma experiência, podendo-se estudar essas condicionantes relativamente a:
1.     Ao sujeito - Atitudes e expectativas do sujeito observado ( Efeito de Hawthorne = A atenção prestada ao trabalho de um sujeito aumenta o seu desempenho mesmo sob condições adversas)
2.     Ao observador - Atitudes, expectativas, estatuto, credibilidade e personalidade do observador (o psicólogo pode colocar o indivíduo à vontade ou provocar um grau de tensão)
3.     Às condições - As condições ambientais devem ser iguais relativamente aos sujeitos observados: local, hora do dia ...
    1. Registo de observações - Para garantir o rigor das observações e permitir a análise dos dados por investigadores independentes:
                                          i.    Registos de ocorrências e duração de comportamentos;
                                         ii.    Escalas de classificação - Níveis de frequência de um facto.
    1. Controlo de condições - Validação da informação:
                                          i.    Grupo Experimental - Grupo de sujeitos onde é testada uma variável independente sendo que as restantes condições e constituição devem ser iguais ao grupo de controlo para permitirem a comparação de resultados.
                                         ii.    Grupo de controlo ou testemunha - Grupo de sujeitos em que as condições da experiência são mantidas inalteráveis, garantindo assim os dados resultantes da observação do grupo experimental.
                                        iii.    Amostra - Conjunto de indivíduos onde decorre a experimentação, sendo constituído a partir da segmentação do universo a estudar. A amostra deve ser significativa e representativa da população a estudar.
1.     Amostragem simples (aleatória) - Quando a população a estudar é homogénea, todos os seus membros possuem condições iguais para o estudo pelo que são escolhidos ao acaso.
2.     Amostragem estratificada - Quando a população a estudar é heterogénea, os diversos grupos devem estar representados pelo que é necessário seleccionar a amostra, recorrendo-se aqui a técnicas da estatística.
                                        iv.    Trabalho de Campo - Verificação da hipótese em situação real
  1. Generalização - Estabelecimento das conclusões pela generalização dos dados da amostra para o universo a estudar.
Método Clínico
            Não é um método de pesquisa nem pretende descobrir leis do comportamento mas constitui-se como uma série de procedimentos de diagnóstico e tratamento de pessoas com problemas de comportamento e /ou emocionais.
            Deste modo o estudo desenvolve-se sobre um único indivíduo ao longo de determinadas fases:
·         Anamnese - Levantamento da história individual do paciente, recorrendo a fontes externas e trazendo à memória informações perdidas. Esta fase permite elaborar algumas hipóteses de trabalho que vão condicionar a fase seguinte
·         Entrevista - Colocação de questões ao paciente na tentativa de selecionar hipóteses a partir das suas respostas verbais e não-verbais (gestos, reações, etc.)
·         Observação - Estudo dos comportamentos do paciente no seu ambiente natural de modo a confirmar a hipótese selecionada
·         Testes - Realização de testes de personalidade de modo a certificar as conclusões.
            A partir da confirmação da hipótese deduz-se qual o tratamento a desenvolver.

Método psicanalítico
Freud, que tinha como objetivo conhecer o inconsciente, estabeleceu um conjunto de processos que nos fornecem informações acerca do inconsciente do paciente, responsável pelos seus distúrbios:
  1. Hipnose - induzir o paciente, através de uma sugestão intensa, a um estado semelhante ao do sono, mas no qual é possível estabelecer uma comunicação entre o hipnotizador e o hipnotizado, podendo assim revelar memórias ocultas ou ser condicionado para determinada ação ou comportamento.
  2. Interpretação dos sonhos - os sonhos apresentam imagens figurativas de recalcamentos, ansiedades e medos, que depois de interpretados vão permitir ao psicanalista obter os resultados das suas investigações sobre problemas de comportamento apresentados pelo paciente. É o método de exploração mais seguro dos processos psíquicos.
  3. Atos falhados – consiste na análise de fenómenos ligados a lapsos de linguagem, de escrita e esquecimentos momentâneos de palavras. São acidentes de carácter insignificante e de curta duração.
  4. Transferência - transferência inconsciente para a figura do psicanalista de sentimentos de ternura ou de hostilidade (transferência positiva ou negativa) atualizando situações reprimidas e esquecidas, para que o psicanalista possa detetar as razões do conflito inconsciente.

Estas técnicas, indiretas, permitem que o próprio paciente tome consciência dos seus problemas, só assim sendo possível a sua cura. Freud usou a hipnose para ajudar as pessoas a reviverem as experiências traumáticas do passado que pareciam associadas com os seus sintomas atuais.